Homero Reis
A Paz
Laudimiro Almeida Filho - Especial para o Admite-se
24/02/2010 11:00
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| “Na fatigante jornada pela Vida, em meio a fatalidades e possibilidades, podemos anular os efeitos nocivos do ressentimento ou da acomodação” |
A palavra PAZ ou sua tradução nos idiomas de povos cristãos talvez tenha sido a mais veiculada em todas as mídias há dois meses, como sói acontecer em todos os finais de ano. Após o carnaval e quase todos já em “velocidade de cruzeiro”, não sei se essa relevante palavrinha continua a permear o mundo corporativo...
O coaching ontológico define PAZ como um estado de ânimo: aquele que corresponde à aceitação da fatalidade. Mas o que é a fatalidade? É uma palavra difícil de ser compreendida pelos seres que têm vocação para a divindade: os humanos! A fatalidade é a circunstância do inexorável, do inalcançável, do irremediável, do intransponível. E embora todas essas palavras tenham correspondentes similares nos diversos idiomas, o Homem parece não ter sido programado para executar os comandos com as quais elas se relacionam. Humanos, nascemos programados para conquistar, dominar, controlar; desprogramados para lidar com o que esteja fora do alcance da mão e da mente, o que sempre nos causa sofrimento. Essa tenacidade para estar no controle nos move desde o berço e – há quem diga – transcende o túmulo. Graças a ela, evitamos ser devorados pela esfinge e deciframos seu enigma: colocamo-nos de pé, temendo a morte, mas vivendo a sensação da eternidade, como se não houvesse amanhã.
Exemplo clássico de fatalidade é que cada um de nós nasce distinto, autônomo e livre, a despeito dos interesses que isso venha a contrariar. Opor-se a essa fatalidade, como a qualquer outra, resulta em ressentir-se. O filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre escreveu uma peça de teatro sob o título “Huis Clos”, traduzido em português como “Entre Quatro Paredes”. A obra conta a estória de três personagens que, logo após suas próprias mortes, ficam confinados juntos (estariam no inferno e cada um seria o carrasco dos outros dois). Dali, eles têm a oportunidade de assistir aos seus próprios funerais, acompanhando os detalhes das últimas homenagens que lhes foram prestadas. Ali, ressentidos pelo que assistem, reagem e dialogam sobre as curiosas relações humanas, em um clima cada vez mais tenso, acabando por concluir que “o inferno são os outros”. A máxima imortalizada nesta obra de Sartre é, e lamentavelmente deverá ser por muito tempo ainda, atual e geradora, em pequena escala, de guerras travadas no cotidiano.
Ao longo de milênios – não importa se saídos da caverna ou do Paraíso – temos dominado o mundo como espécie e indivíduos vencedores. Ao longo das sucessivas “civilizações”, temos produzido um sistema de crenças, hipóteses, teses, filosofias e dogmas que sustentam a infalibilidade do Homo sapiens diante da Natureza. Assim, o Homem tem criado Deus à sua imagem e semelhança, e curiosamente é em Seu nome que, muitas vezes e supostamente, agem os senhores da guerra, em escala por vezes planetária. É improvável que, reunidos, Jesus, Maomé, Buda e Krishna, avatares das principais religiões do Planeta (cristianismo, islamismo, budismo e hinduísmo) não chegassem a um consenso sobre os fundamentos das convicções que professaram e fizeram apregoar. Entretanto, o fanatismo de seus seguidores promove, em plena Era do Conhecimento, o terrorismo e as guerras (uma delas até qualificada como “santa”), provenientes do fundamentalismo e da ortodoxia, tingindo de luto e sangue o nosso Planeta Azul.
Muito se tem dito sobre a PAZ, mas o sopro da pronúncia coletiva dessa palavra ainda tem sido tênue para abafar a beligerância que arde ao redor do Planeta, como um estado de ânimo que parece prevalecer. Aos senhores da guerra se atribui a responsabilidade por essa prevalência, mas já seria muito razoável que a intolerância estivesse restrita aos campos de batalha. Lamentavelmente, para vê-la basta olhar ao redor: ela está no trânsito, nas arenas esportivas, nos parlamentos e, contraditoriamente, até mesmo nos fóruns de “discussão” e “debate” sobre a PAZ, como se Ela admitisse discussões e debates. Aliás, a intolerância pode ser vista no diálogo entre quaisquer de nós que deixemos agir a mente treinada para vencer e convencer, para não admitir o outro como um ser sagrado, livre, legítimo e, por isso mesmo, merecedor de respeito.
Parece existir uma correspondência entre essa programação original (peopleware ou humanware) e o hardware. Dotados de um cérebro privilegiado entre as espécies, somos – a priori – dependentes de sua região mais velha e primitiva: o cérebro reptiliano, programado para a sobrevivência e, conseqüentemente, para a agressão. Essa região cerebral estaria a emular emoções básicas (paixão, ódio, medo, luxúria, satisfação) que superam a ação de camadas de raciocínio mais modernas e sofisticadas, acrescidas ao longo de milênios de evolução, as quais são capazes de gerar e transmitir energias de freqüência mais alta (Amor, Consciência, Senso, Sensibilidade).
É inequívoco que o instinto de sobrevivência nos trouxe até aqui, mas é perceptível que começa a nos devolver, senão aos portais do Paraíso, à entrada das cavernas. As emoções básicas governam nosso mundo objetivo, e sem elas certamente seríamos uma espécie extinta ou em extinção, mas alguns expoentes admiráveis da humanidade já alcançaram a percepção de que “o essencial é invisível para os olhos” e que “só se vê bem com o coração”. É chegada a hora, portanto, de um salto quântico na vida dos terráqueos: sem prejuízo dos instintos primitivos que nos mantêm vivos, somos chamados a desenvolver a capacidade de usar os outros 90% da mente humana, onde certamente adormecem o artista e o gênio que somos cada um.
Sempre acreditei no “caminho do meio” como a saída. Curiosamente, os dois hemisférios cerebrais são incompletamente separados por uma fissura longitudinal, cujo assoalho é formado por uma larga faixa de fibras comissurais, denominada corpo caloso, principal meio de união entre os dois hemisférios. Parece ser esse o periférico mais moderno da máquina humana de pensar, capaz das sinapses mais complexas, sutis e sofisticadas. Acredito ser essa a ponte para a PAZ, que – por definição – jamais vai “invadir” nossos corações, mas que sempre esteve, está e estará acessível às nossas mãos e mentes, em um lugar seguro: dentro de nós.
Esse acesso pressupõe coragem e resignação. Aos observadores distintos é dado conhecer que não pode existir raiva, onde não tenha antes havido o medo. O medo, uma daquelas emoções primitivas, ainda nos persegue, embora esteja fadado a desaparecer, na medida em que ousemos intervir em nosso próprio destino, travando a que talvez seja a última e mais difícil batalha: a luta contra o temperamento bélico, a árdua conquista de uma personalidade superior, não pela repressão do eu inferior, mas pela prevalência do Eu Superior, convertendo-nos em um centro de PAZ no mundo, sendo a guerra e a PAZ círculos concêntricos, cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não se encontra em parte alguma.
Na fatigante jornada pela Vida, em meio a fatalidades e possibilidades, podemos anular os efeitos nocivos do ressentimento ou da acomodação, diante de uma ou de outra circunstância, investindo nos estados de harmonia e em nossas legítimas aspirações, traduzidas nas numerosas e eloqüentes mensagens de PAZ que fazemos circular o mundo. Sejam elas geradoras do bem de que ainda necessita a humanidade, e estejamos nós, os mensageiros, comprometidos com a coerência entre discurso e prática e com o ideal ético do coaching ontológico: que a teoria esposada coincida com a teoria em uso, revelando assim a nossa saúde como observadores distintos e renovando a esperança de que o ano-novo seja realmente lugar e tempo de felicidade.
Eu não quero ter medo de ser feliz! E você?
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Laudimiro Almeida Filho é engenheiro civil pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais. Coach Ontológico Empresarial certificado pela Homero Reis Consultoria.